Arquivo de agosto, 2009

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culpa

O Brasil atravessa hoje um dos momentos mais difíceis de toda sua história. Os infinitos casos de corrupção, ventilados pela mídia para todo o país, esbofeteiam nossa dignidade. O clima está pesado. Um sentimento de impotência teima em querer se abrigar em nossos corações. Antes mesmo de digerirmos alguns fatos, uma seqüência infinita de outros já vêm em nossa direção a fim de nos soterrar.

Somos espectadores de tramas diabólicas. Vemos que, na busca desenfreada pelo poder, muitos têm vendido a própria dignidade. Penhoram a própria honra em dívidas que jamais poderão ser quitadas. E a nós, miseráveis mortais, resta apenas assistir a todo esse espetáculo com o amargo gosto da insatisfação, parceiro inseparável do nosso imutável conformismo. Nessa novela da vida real, nos cansamos de sempre fazer o papel de bobos indefesos, que nunca deixam de ser marionete sem cérebro nas mãos dos que manipulam o país.

A corrupção se alastra pelo Brasil de forma assustadora. O ritmo de sua pulverização se dá em velocidade meteórica, ultrapassando em passos galopantes a transmissão do vírus H1N1. A corrupção made in Brasil manifesta-se como uma infecção generalizada. Nosso poder público, em todas as esferas, desmorona diante da acurada análise de sua estrutura. Ao se abrir as portas que conduzem ao interior de qualquer instituição política do país, nota-se que ali jazem cadáveres da honradez em avançado estado de putrefação; ao buscarmos abrigo na “religião”, antigo refúgio, descobrimos que a mesma está infestada por víboras gulosas por dinheiro e poder, e que, diariamente, maculam a imagem dos que ainda pelejam para ser verdadeiros cristãos. São armadilhas e labirintos macabros; casas de horrores; o mais assombroso de todos os filmes de terror.

Porém, algo muito intrigante desafia e clama em gritos desesperados por nossa atenção. Devemos ter extremo cuidado para que o vírus da corrupção não nos alcance. Sim, pois alguém já sugeriu que muitos são honestos tão somente porque lhes falta ocasião e talento necessários para serem o oposto. E eu acredito nesse veredicto popular. Note que os grandes e caudalosos rios começam nas pequenas gotas das nascentes. Homens corruptos não são paridos da noite para o dia. A maioria deles traz sobre si essa herança maldita. Tal vulcão adormecido espera apenas o momento propício para protagonizar sua avassaladora manifestação.

Lamentável é saber que em nós está incubado o asqueroso hábito de dar um jeitinho nas coisas, de tirar proveito de tudo. Não bastasse isso, trazemos em nossas costas a rígida disciplina em que fomos adestrados, que nos ensina a alcançar determinados fins, não importam os meios. Isso então explica o porquê de nossa tolerância e inércia diante de tantas falcatruas. Afinal de contas, a maioria de nós, se estivesse no lugar dos atuais “meliantes”, agiria de maneira igual ou, quem sabe, até pior.

Vemos tristemente que a profecia de Rui Barbosa, distinto escritor e ex-político brasileiro, cumpre-se em nossos dias. Ele sentenciou que “de tanto ver triunfar as nulidades, e de tanto ver o poder se acumular nas mãos dos maus, o brasileiro chega a ter vergonha de ser honesto”.

A nós, remanescente cristão, resta ouvir o apelo de Paulo quando rogava: “Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da vossa mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Romanos 12.2 NVI).

Que cada um de nós possa, em tempos tão difíceis e turbulentos, testemunhar o evangelho de Cristo de forma incandescente. Que nos portemos como referenciais vivos do Reino de Deus nessa terra, como o “bom perfume de Cristo” (II Co 2.15), e que a parte mais obscura de nossas vidas seja mais resplandecente que o sol do meio dia (cf. Sl 37.6).

Francisco Helder Sousa Cardoso

Jovens“Quando o Senhor Jesus chamou meu coração, não fez um convite descuidado ou impensado. Não quis apenas ser gentil ou educado, mas deixou claro que havia algo importante a ser feito… Quando Ele me chamou, não fez promessas humanamente convincentes. Nada que me enchesse os olhos, apenas disse que me faria um pescador…” (trecho da música Pescador, Grupo Logos).

Não encontrei definição contemporânea mais adequada que essa pra abrir nossa conversa sobre vocação. Logo de cara já vou alertando: vocação é coisa séria. Depois que mergulhei nessa vida, me inclinei a ouvir os mais variados testemunhos sobre o tema. Já houve quem tenha “jurado de pés juntos” que a confirmação de seu chamado fora em meio a fatos mirabolantes, como numa cena de filme, cheia de efeitos especiais. Outros menos eufóricos relataram que o veredicto final para que atendessem ao chamado do mestre se deu quando ouviram uma pregação, ou simplesmente quando oraram e sentiram intensa paz em seus corações.

Mas algo é comum a todos os vocacionados, sejam os movidos a experiências de 110 ou 220wts “espirituais”: todos eles tiveram que renunciar a algo. E essa é a fase mais difícil. Lembro-me como se fosse hoje o dia em que, aos 17 anos, no distante interior do Maranhão, com o coração dilacerado, tive que decidir abrir mão dos meus projetos pessoais, do aconchego do lar, da convivência ao lado dos primeiros amigos que tive nessa vida e do seio da igreja mãe para então poder dizer sim ao chamado do Mestre. Como foi difícil. Ainda mais quando imaginava que uma nova jornada seria iniciada em uma terra onde não conhecia uma pessoa sequer.

Mas uma decisão precisava ser tomada. Uma renúncia precisava ser feita. Tinha um desafio a ser aceito, mas para isso havia um oceano de coisas a serem deixadas para trás. E a parte onde precisamos renunciar a certas coisas é a mais difícil do processo.

Em relação a isso, lembro-me da palavra desafiadora do Pr. Fernando Brandão, executivo da JMN, dirigindo-se a jovens, provocando-os: “está na hora de vocês sacrificarem os seus Isaques” (cf. Gn 22). É muito difícil quando Deus faz isso conosco. Quando ele pede aquilo que temos de mais valioso; quando Ele “teima” em nos querer frutificando em outro lugar, que não o da nossa escolha; quando insiste em ceifar nossos muitos e coloridos sonhos, substituindo o bisturi, estetoscópio, livros de Direito, calculadora, esquadros, fórmulas, projetos arquitetônicos e tantas outras ferramentas de trabalhos que nos enchiam os olhos por nada mais que uma rede de pesca em forma de Bíblia. É exatamente aí que descobrimos o quanto custa caro “sacrificar os nossos Isaques”. Mas se quisermos estar no centro da vontade de Deus, sendo homens e mulheres segundo Seu coração, precisaremos começar a “separar a lenha para o holocausto, levantar e ir ao monte do sacrifício” (v.3), assim como o fez, na antiguidade, Abraão.

Gostaria de desafiá-lo nesse momento a dedicar os melhores anos da sua vida ao Senhor nosso Deus. A única garantia que posso lhes dar é que nada nesse mundo é mais poderoso que uma vida nas mãos de Deus. Como nossa saudosa poetisa Myrtes Mathias um dia bem lembrou, “se te dispões, Cristo salvará o mundo através de ti”.

Prometer que apenas dias floridos e ensolarados preencherão sua caminhada vocacional não passa de propaganda enganosa. Vez por outra atravessamos vales profundos, cheios de perigos e temores. Aqui e acolá experimentamos bem de perto os estragos que fazem os espinhos do ministério, manifestados em forma de hostilidade, ingratidão, insubmissão, desafetos e muitas outras mazelas geradas nos corações de alguns. Mas nada disso se compara ao suave perfume que exala das rosas plantadas pelo Senhor nesse mesmo jardim. Além do mais, o Jardineiro nos segura pela mão e ao pé do nosso ouvido sussurra “que nunca nos deixará, nem nos abandonará, mas estará conosco todos os dias até a consumação dos séculos” (Mt 28.20).

Que o seu medo não seja de a algo renunciar e nem dos problemas que, como um dia reconheceu o Apóstolo Paulo, era a única certeza que ele tinha, pois “não sabia o que lhe haveria de acontecer, senão que de cidade em cidade lhe esperavam prisões e tribulações” (At 20. 22,23, adaptado). Apesar disso ele não desanimou. Prosseguiu firme. Isso somente foi possível porque ele sabia que nada nem ninguém jamais poderia separá-lo do amor de Deus que era manifestado através de Cristo Jesus (cf. Rm 8).

Que o seu medo seja, acima de tudo, o de ter uma vida cristã irrelevante. Dias sombrios e tenebrosos, inevitavelmente, virão. Mas estaremos seguros nas mãos e no amor de nosso Deus.

Oro a fim de que o Senhor possa usar-nos, fazendo-nos o que de melhor a nossa geração terá produzido. Oro ainda para que assim como o Apóstolo Paulo possamos, segura e alegremente, afirmar que “em nada temos a nossa vida por preciosa, contanto que cumpramos com alegria a nossa carreira, e o ministério que recebemos do Senhor Jesus, para darmos testemunho do evangelho da graça de Deus” (At 20.24, adaptado).

Francisco Helder Sousa Cardoso

JESUS NÃO É O CHAPOLIN COLORADO

Publicado: 3 de agosto de 2009 em Sem categoria

chapolinBem que Jesus poderia reproduzir as palavras do atrapalhado super-herói mexicano e cantarolar: “Não contavam com minha astúcia”. Boa ocasião para isso seria o episódio da mulher apanhada em adultério (João 8). O Mestre estava praticamente encurralado. A mulher fora surpreendida em adultério. A Lei condenava sem piedade os que tais atos cometessem. Restava a Jesus apenas aplicar as duras penas estabelecidas pela Lei de Moisés. Porém, para surpresa de todos, o jogador aparentemente vencido de repente tira uma carta da manga. O boxeador inquestionavelmente derrotado, arrancando forças do improvável, volta à luta e num golpe certeiro leva seu adversário a nocaute. Caberia então, aí, uma boa oportunidade para Jesus afirmar: “Não contavam com minha astúcia”.

Astúcia, segundo o dicionário Houaiss, é “habilidade para não se deixar enganar…”. Pode ainda ser entendida como a capacidade de criar artimanhas para se sair de situações embaraçosas.

Mas é perigoso demais enquadrar numa mesma fôrma a “astúcia” de Jesus, do Chapolin Colorado e a nossa. O Chapolin era astuto no meio da tolice. Surpreendia a todos com suas asneiras. Aquilo que ele considerava “astúcia” nada mais era que coincidências hilárias e jocosas encontradas tão somente nas páginas e episódios da ficção.

E o que dizer da nossa astúcia? Não será difícil reconhecer que ela se confunde, algumas vezes, com a maliciosa esperteza. Por vezes, para que nossa astúcia tenha êxito, nem pensamos duas vezes antes de fazer malabarismo com as armas da impiedade. A nobreza da nossa astúcia perde-se, dessa forma, no lamaçal da desenfreada ambição. Em nome dos nossos perversos intentos, driblamos a dignidade e associamo-nos àqueles que se fazem de surdos para não ouvirem à voz do Mestre alertando que “entre nós não deve ser assim…” (Mt 20.26, adaptado).

Porém Jesus, o meigo carpinteiro de Nazaré, era mestre em encabular os que continuamente queriam puxar seu tapete. Quando o jogavam num aparente “beco sem saída” e dele exigiam a inquestionável rendição, em saídas magistrais Ele então deixava bem claro o porquê de “Ele e o Pai serem um” (João 10.30, adaptado).

As igrejas evangélicas plantadas em solo brasileiro precisam entender urgentemente que Jesus não é o Chapolin Colorado. Pela dificuldade dessa distinção, verificamos que a maioria dessas igrejas adotou um modelo precário de pregação, onde não há espaço para o evangelho da graça de Cristo, mas apenas para seguidores do atrapalhado Chapolin. Afinal de contas, é ele que diz repetidamente: “sigam-me os bons!”. Jesus de Nazaré é diametralmente contrário a esse sentimento.

Sem medo de gerar desafetos, testas franzidas, caras amarradas ou duras atitudes de retaliação, ele se atrevia a contrariar os mais elevados padrões religiosos e dizer: “venham a mim os cansados, sobrecarregados e oprimidos e eu vos aliviarei” (Mt 11.28). Sim, venham todos os malditos, miseráveis e imundos pecadores; vocês são a razão da minha vinda a esta terra, pois “os sãos não precisam de médicos, mas sim os doentes, não vim chamar justos, mas sim pecadores” (Mc 2.17).

Urge a necessidade de resgatarmos a graciosidade da mensagem de Cristo. Precisamos dar um basta nesse evangelho terrorista que tem monopolizado os púlpitos das igrejas evangélicas no Brasil. Mas não confundamos alhos com bugalhos: não é para se atenuar a mensagem que alerta o vil pecador da mortandade que o aguarda no fim do seu caminho. Mas sim, para defrontá-lo acima de tudo com um Deus amoroso que deseja ardentemente tê-lo em seus braços, desfrutando as delícias da Salvação que somente existe em Cristo Jesus. Um evangelho que gera pessoas que desejam fazer a obra de Deus por amor incondicional a Ele, e não por medo da rigidez de suas sanções e penalidades.

Olhar para as páginas bíblicas e ver nelas não mais que um Deus tirano e irado é uma aberração que gera uma tragédia sem precedentes, com efeitos catastróficos e males inimagináveis.

Negligenciar as orientações bíblicas e insistir em tal desatino é precipitar a igreja num despenhadeiro quase que irremediável, dando-lhe como última opção um clamor semelhante ao dos coadjuvantes da trama mexicana quando em desespero diziam: “E agora, quem poderá nos ajudar?”.

Francisco Helder Sousa Cardoso