JESUS NÃO É O CHAPOLIN COLORADO

Publicado: 3 de agosto de 2009 em Sem categoria

chapolinBem que Jesus poderia reproduzir as palavras do atrapalhado super-herói mexicano e cantarolar: “Não contavam com minha astúcia”. Boa ocasião para isso seria o episódio da mulher apanhada em adultério (João 8). O Mestre estava praticamente encurralado. A mulher fora surpreendida em adultério. A Lei condenava sem piedade os que tais atos cometessem. Restava a Jesus apenas aplicar as duras penas estabelecidas pela Lei de Moisés. Porém, para surpresa de todos, o jogador aparentemente vencido de repente tira uma carta da manga. O boxeador inquestionavelmente derrotado, arrancando forças do improvável, volta à luta e num golpe certeiro leva seu adversário a nocaute. Caberia então, aí, uma boa oportunidade para Jesus afirmar: “Não contavam com minha astúcia”.

Astúcia, segundo o dicionário Houaiss, é “habilidade para não se deixar enganar…”. Pode ainda ser entendida como a capacidade de criar artimanhas para se sair de situações embaraçosas.

Mas é perigoso demais enquadrar numa mesma fôrma a “astúcia” de Jesus, do Chapolin Colorado e a nossa. O Chapolin era astuto no meio da tolice. Surpreendia a todos com suas asneiras. Aquilo que ele considerava “astúcia” nada mais era que coincidências hilárias e jocosas encontradas tão somente nas páginas e episódios da ficção.

E o que dizer da nossa astúcia? Não será difícil reconhecer que ela se confunde, algumas vezes, com a maliciosa esperteza. Por vezes, para que nossa astúcia tenha êxito, nem pensamos duas vezes antes de fazer malabarismo com as armas da impiedade. A nobreza da nossa astúcia perde-se, dessa forma, no lamaçal da desenfreada ambição. Em nome dos nossos perversos intentos, driblamos a dignidade e associamo-nos àqueles que se fazem de surdos para não ouvirem à voz do Mestre alertando que “entre nós não deve ser assim…” (Mt 20.26, adaptado).

Porém Jesus, o meigo carpinteiro de Nazaré, era mestre em encabular os que continuamente queriam puxar seu tapete. Quando o jogavam num aparente “beco sem saída” e dele exigiam a inquestionável rendição, em saídas magistrais Ele então deixava bem claro o porquê de “Ele e o Pai serem um” (João 10.30, adaptado).

As igrejas evangélicas plantadas em solo brasileiro precisam entender urgentemente que Jesus não é o Chapolin Colorado. Pela dificuldade dessa distinção, verificamos que a maioria dessas igrejas adotou um modelo precário de pregação, onde não há espaço para o evangelho da graça de Cristo, mas apenas para seguidores do atrapalhado Chapolin. Afinal de contas, é ele que diz repetidamente: “sigam-me os bons!”. Jesus de Nazaré é diametralmente contrário a esse sentimento.

Sem medo de gerar desafetos, testas franzidas, caras amarradas ou duras atitudes de retaliação, ele se atrevia a contrariar os mais elevados padrões religiosos e dizer: “venham a mim os cansados, sobrecarregados e oprimidos e eu vos aliviarei” (Mt 11.28). Sim, venham todos os malditos, miseráveis e imundos pecadores; vocês são a razão da minha vinda a esta terra, pois “os sãos não precisam de médicos, mas sim os doentes, não vim chamar justos, mas sim pecadores” (Mc 2.17).

Urge a necessidade de resgatarmos a graciosidade da mensagem de Cristo. Precisamos dar um basta nesse evangelho terrorista que tem monopolizado os púlpitos das igrejas evangélicas no Brasil. Mas não confundamos alhos com bugalhos: não é para se atenuar a mensagem que alerta o vil pecador da mortandade que o aguarda no fim do seu caminho. Mas sim, para defrontá-lo acima de tudo com um Deus amoroso que deseja ardentemente tê-lo em seus braços, desfrutando as delícias da Salvação que somente existe em Cristo Jesus. Um evangelho que gera pessoas que desejam fazer a obra de Deus por amor incondicional a Ele, e não por medo da rigidez de suas sanções e penalidades.

Olhar para as páginas bíblicas e ver nelas não mais que um Deus tirano e irado é uma aberração que gera uma tragédia sem precedentes, com efeitos catastróficos e males inimagináveis.

Negligenciar as orientações bíblicas e insistir em tal desatino é precipitar a igreja num despenhadeiro quase que irremediável, dando-lhe como última opção um clamor semelhante ao dos coadjuvantes da trama mexicana quando em desespero diziam: “E agora, quem poderá nos ajudar?”.

Francisco Helder Sousa Cardoso

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