Arquivo de junho, 2010

Meu blog é minha caixa de tesouros. Aqui guardo o que tenho de melhor: textos, expressões de fé, ternura e amor. Há muitas pessoas nesse mundo que amo. Todavia, pouquíssimas ganharam destaque em meu blog: apenas meu pai (in memorian), minha mãe e minha noiva. Hoje o inacreditável aconteceu. Incomodado desde ontem à noite, senti desejo de homenagear uma pessoa desconhecida de praticamente todos vocês (e quem sabe até de mim mesmo). Uma anônima cuja imagem não me saiu da mente um instante sequer. Pela alteração que fez em minha vida, presto-lhe o tributo abaixo:

Nazaré: este é o nome da jóia. Uma bela menina de apenas oito anos. Foi a primeira vez que a vi. Criança comum, mas que, diferentemente das outras da sua idade, permanecia sentada, bem quietinha. Mirei-a rapidamente. De repente, seu pai (que eu nem sabia que era seu pai), distante uns 5 metros de nós, a apresentou: “Ela é especial”. Não acreditei! A “Naza” (apelido especial com o qual ele a chamava) parecia tão “normal”.

Depois de alguns instantes percebi porque “Naza” era considerada “especial”. Suas pernas frágeis não sustentavam com firmeza seu corpo. Sua cabeça, de tempos em tempos, dava solavancos, para trás e para frente. Não fosse isso, meu Deus, diria ser ela igualzinha às minhas sobrinhas Ana Júlia, Maria Eduarda e Mariely. Seu sorriso de anjo, seu olhar cheio de pureza e sua doçura prenderam minha atenção.

Não resisti. Pedi um beijo. Um abraço. Sussurrei ao pé do seu ouvido que a achava linda, meiga, como uma estrela do céu. Por pouco, muito pouco, não chorei abraçado a ela. Por que motivo eu choraria? Porque as pernas da “Naza” não a deixavam, como as outras crianças, correr livremente? Porque seu destino parecia irrevogavelmente traçado? Sinceramente, não sei.

Vivi tudo isso ontem à noite (sábado, 19.06.2010), na congregação onde sirvo (Batista no Curuçambá, Ananindeua, Pará). Por razões que não sei explicar, “Naza” não me saiu da mente. Desde ontem não parei de pensar naquela menininha. Meu corpo veio para casa, mas meu coração até agora não voltou do Curuçambá… Uma das mais impactantes experiências de contato com Deus me foi proporcionada ontem. Não foi numa conferência internacional, num mega congresso ou num culto cheio de ícones religiosos. Não! Deus “tocou-me” profundamente através do sorriso e da vida de uma criança de 8 aninhos.

Se eu pudesse daria a ela, naquele instante, minhas pernas, meus movimentos, qualquer parte de mim. Foi então que “caí na real”: Naza não estava ali para me pedir nada, mas para me oferecer. Ela,  sem pedir nada em troca, encheu minha alma de paz, alegria, sinceridade, temor a Deus…

Nos últimos 4 anos conheci pessoas muito importantes. Algumas ilustres. Desde figuras político-partidárias a gigantes denominacionais; apertei a mão de um sem-número de escritores famosos, pregadores nacionalmente conhecidos e ídolos da música gospel. Alguns desses, “homens e mulheres de Deus”. Mas nenhum deles mostrou-me Deus tão de perto como a “Naza”. Não tenho dúvida: Deus se revelou a mim, de maneira ímpar, na vida daquela menininha. Acho que isso, e apenas isso, a torna indiscutivelmente especial.

Qual lição tiro disso tudo? Devo tornar-me mais, muito mais sensível à manifestação do sagrado no meu dia-a-dia. Deus se manifesta nas coisas mais simples da vida…

MINHA ORAÇÃO A PARTIR DE HOJE: “Deus, faze-me como a Naza. Que mesmo quando eu não disser uma palavra sequer, o mundo possa ver-te em mim. Que eu reflita Tua luz e Tua paz a este mundo. Para Tua própria glória, honra e louvor!”

Francisco Helder

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NOTA DO AUTOR:   Texto produzido em janeiro de 2009.

Coitadinho do irmão Kaká. Mesmo com a sua cumulada categoria e excelente desempenho nos gramados, não conseguiu levar novamente o título de melhor jogador do mundo no ano de 2008. Mas também, ele não contava com a insubordinação do seu corpo que, “covardemente”, teimou em não corresponder às exigências do futebol profissional. Do 1º lugar do mundo declinou, involuntariamente, para a 4º colocação.

Mas não adianta ficar triste. Afinal de contas, o que se avalia não são os préstimos brilhantes e os momentos colossais que ele proporcionou às vibrantes torcidas quando a bola acasalava-se, perfeitamente, aos seus pés. Mas sim, o momento atual. Dessa forma, não mais o Kaká, mas o português Cristiano Ronaldo tornou-se o alvo número um da poderosa (e não menos ingrata) mídia.  Ele, o lusitano, é a bola da vez.

Sei que o ministério pastoral não é uma partida de futebol. Também sei que as igrejas não são (ou pelo menos não deveriam ser) como os torcedores frenéticos e enlouquecidos que lotam arquibancadas. Mas algumas vezes percebo que, curiosamente, vivemos a mesma mediocridade encabeçada por alguns torcedores. Eles têm a misteriosa capacidade de, em um mesmo jogo (por exemplo, uma final de campeonato), acolher no coração tão opostos sentimentos: Amor e ódio; glória e vergonha; aclamação e repúdio. Basta apenas o árbitro apitar sinalizando o final da partida que logo se verá a velocidade meteórica com a qual eles definem e distinguem mocinhos e bandidos.

Vemos, dessa maneira, os jogos como muito mais do que um ambiente de salutar prática esportiva. Eles são, quase sempre, a arena do egoísmo. A mais fiel retratação do doentio e perverso sentimento da cobrança, da exigência mais atroz e animal, da ingratidão. A mesma torcida que ovaciona jogadores, vociferando em poderoso coro seus nomes, diante de uma fase difícil dos mesmos atletas, ensaiam um novo grito e então explodem: “Burro, burro, burro!”.

Não quero forçar a barra nesta comparação. Também espero não parecer neurótico, e nem financiar tal sentimento em seu coração. Mas confesso que tenho medo de algum dia perder a lucidez, ceder à tentação e desejar, quem sabe, “dançar” (ou melhor, jogar) conforme a música entoada pelas torcidas que lotam as arquibancadas eclesiásticas. Tenho medo pois ela é uma torcida que deseja que você conduza o time à elite da religião, focalizando muitas vezes esse fim, e fomentando-o a alcançá-lo, não importam os meios. Isso é doentio. Deus nos livre desta cancerosa tentação. Vade retrum, Satanás!

Cuidado! Essa não é a essência do futebol. Apreciar um esporte que se apresenta nesses moldes não nos torna mais nobres do que os que se empolgavam nas arquibancadas do Coliseu, vendo leões destroçar homens vivos. E aquilo (acredite!) não passava de uma forma de diversão… A essência do futebol é aquela partida gostosa, que se joga com amigos, descontraidamente, e que tem como maiores objetivos fortalecer os laços de amizade, lubrificar a estrutura corpórea e espantar o tédio (Puxa! Olhando por esse prisma, mesmo sem ter habilidade, senti até vontade de jogar…)

Pastorear atormentado pela sombra e gritos da tirânica torcida gera males inimagináveis. Ceder às egoístas exigências das igrejas que, às vezes, teimam em nos ver como atletas infalíveis só nos faz sofrer a longo prazo. Por isso, lá vai uma sugestão com valor de medalha de ouro: Não faça das suas vitórias, das jogadas inacreditáveis e das exuberantes performances pastorais o combustível que impulsiona sua igreja e seu ministério, pois poderá ocorrer (e não será tão difícil) de você não conseguir manter esse padrão e eles, por conseguinte, o encararem como uma simples carta fora do baralho. Duvidas?  Não precisa nem pagar pra ver…

Aproveitando as imagens “futebolísticas”, motivo-o a calçar as chuteiras da humildade, vestir a camisa do santo e puro Evangelho e não apenas jogar, mas lutar desesperadamente para fazer de sua igreja uma comunidade de amor, onde pessoas sejam mais importantes do que coisas e títulos, e onde se prega e vive fielmente a Palavra de Deus.

Fama, bens, status, “prestígio” denominacional, glória humana: Nenhum desses troféus tem valor diante do tempo… Pondero nas palavras do Pr. Ricardo Gondim, escritor, que sabiamente orienta que “vivamos, como pastores, de modo a ser conhecidos em apenas dois lugares: No céu e no inferno. No céu pra ser admirados, e no inferno pra ser temidos”. Os que conseguirem alcançar esse patamar terão vencido de goleada o jogo contra o inferno e o mal, e perceberão a nobreza de talvez terem perdido o mundo, mas,  sábia e heroicamente, ter preservado sua alma (cf. Mt 16.26).

E já que o “papo” é esporte, convido para instruir nosso time de pastores um experiente técnico que já orientou desde jovens soldados a pequenos grupos de “atletas” das distintas Europa e Ásia, e hoje influencia gente do mundo inteiro. Diz ele com categoria: “Nesse jogo, façam tudo o que vocês puderem por causa do Evangelho […] Vocês sabem que muitos correm no estádio, e todos eles querem o prêmio, mas apenas um o leva. Se esforcem de tal maneira que esses vencedores sejam vocês. Para isso, disciplinem-se rigorosamente; focalizem apenas o troféu celeste e empenhem todo o esforço necessário a fim de alcançá-lo. […] Joguem da melhor maneira possível; joguem até o final da partida. Mas lembrem-se do mais importante: Jamais abram mão da vossa fé” (paráfrase livre e particular de I Co 9.23-26 e II Tm 4.7).

Francisco Helder Sousa Cardoso