RAZÕES PELAS QUAIS TENHO VERGONHA DOS MEUS “IRMÃOS”

Publicado: 2 de dezembro de 2009 em Sem categoria

Em meu último artigo (“Evangelho no Brasil à beira do caos”) estampei minha agonia ante o show de banditismo que vem sendo protagonizado no Brasil por alguns líderes evangélicos. Tenho tentado manter o bom nível a fim de não canalizar contra eles, através de palavras, toda a fúria que brota do meu coração por causa das suas dissimuladas ações.

Mas confesso que não está dando mais para suportar. A represa da minha alma apresenta frestas, e por elas deixo escorrer parte das águas revoltosas que, durante os últimos meses, têm encharcado meus pensamentos. Está sendo impossível conter toda a minha angústia diante das barbaridades que têm sido realizadas pela volumosa safra de auto-proclamados pastores, bispos, reverendos e apóstolos. Grande parte desses líderes enquadra-se facilmente na categoria de “marginais da fé”, uma vez que foram produzidos no subúrbio mais perigoso e nos becos mais sombrios do movimento evangélico. Como verdadeiros delinqüentes, vivem a investigar quais as vulnerabilidades das suas vítimas (fiéis), a fim de maquinarem novas estratégias de lhes furtar a mão-de-obra, submissão, bens e dinheiro.

Multidões hipnotizadas pelas promessas de saúde imbatível, família restaurada e dinheiro inacabável, cegamente trilham os passos dos seus super-heróis da fé. Como zumbis, desprezam as enxurradas de evidências que põem em xeque a moral, caráter, dignidade e até mesmo a conversão dos seus ícones. Em inevitável conseqüência, vemos dezenas de milhares de “evangélicos”, espalhados por este imenso país, sendo reféns da própria ignorância e da falta de leitura crítica da realidade e dos fatos (e por que não dizer, da Bíblia!). Aos espectadores de toda essa trama resta apenas colecionar a avalanche de denúncias e acusações que multiplicam-se, quase que diariamente, contra os tais “ungidos do Senhor”.

No apagar das luzes de 2009 veio à tona um escândalo que, acredito, deixou horrorizada a nação brasileira. Disseminou-se para todo o país, através dos telejornais e principais sites noticiosos, vídeos onde alguns membros do poder executivo e legislativo do Distrito Federal aparecem arquitetando o “mensalão candango” (isto é, esquema de corrupção em que pessoas-chave recebiam dinheiro para favorecer o Governo do Distrito Federal em seus projetos). Para surpresa de todos, um dos vídeos trouxe uma cena curiosa e abominável: um deputado daquele Estado (e que também se diz pastor), após encerrar um dos supostos acordos “mensaleiros”, convida os demais integrantes da reunião a fazerem uma oração. Na sua fala agradeceu reverentemente ao Senhor pela generosa oportunidade que lhes fora dada (segundo ele, pelo próprio Deus), para serem abençoados através daquela fraude.  Confesso que aquela noite, assistindo àquelas cenas, restará como uma das mais humilhantes de toda minha vida.

Bom seria se pudéssemos blindar os corações dos incrédulos e dos recém-convertidos contra tudo isso. Sim, pois não fazemos idéia de como isso os empurra para longe de Cristo, tornando-os indiferentes e hostis à mensagem do Evangelho. Acredito que assim como aqueles “mensaleiros crentes” do vídeo, muitos outros há que, mesmo que sem perceber, têm contribuído grandemente para desvalorização da verdadeira pregação da Palavra em nosso País.

Alguém já sugeriu acertadamente que “as pessoas estão cansadas de ouvir falar de Jesus. Elas querem mesmo é ver Jesus em nossas vidas”. Segundo o piedoso A. W. Tozer, “Santos não santos são a tragédia do Cristianismo”. Complementa essa convicção o Pr. Isaltino Gomes, afirmando que “este é o maior inimigo da igreja: o evangelho não vivido”. E que jamais nos esqueçamos: “o talento não substitui o caráter”.

Espero, sinceramente, que todos esses escândalos que vieram à tona nos últimos meses sirvam-nos de lição. Que tenhamos cautela diante dos reluzentes tesouros desse mundo. Não prostituamos nossa dignidade e fé, trocando-as por cargos, bens e prestígio. Afinal de contas, “devemos ajuntar tesouros no céu” (Mt 6.19), pois “que nos aproveitaria ganhar o mundo inteiro, se perdêssemos nossas almas?” (Mt 16.26).

Quanto à posição que devemos tomar em relação aos evangélicos e a política, não creio ser a saída sentenciar, irrefletidamente e pelo choque do momento, que a política (partidária) é diabólica, e que, por isso, nenhum cristão deve pleitear quaisquer dos seus cargos. Todos os setores onde existirem homens que são dirigidos por impulsos pecaminosos, ali haverá possibilidade de fraude, mentira, roubo e corrupção. Seja na gerência de empresas, nos caixas de supermercados, nos cargos públicos e até mesmo nas igrejas. Em qualquer cargo ou função estaremos sujeitos à tentação de corromper-nos. Primar pela retidão e honestidade é nosso dever cristão.

Uma excelente baliza para nossas atitudes é dada por Paulo. Ele afirma que tudo o que fizermos, mesmo as coisas mais simples da vida como beber e comer, deve ser feito para a glória de Deus (cf. 1Co 10.31). Quando o nosso principal interesse for realmente glorificar a Deus, nunca mais exporemos a tamanho vexame o Seu santo nome.

Pode-nos, ainda, ser útil a sugestão do Pr. Martin Luther King, que nos convidou a “marchar sobre as urnas até que enviássemos as Câmaras Municipais, às Prefeituras, Assembléias Legislativas, ao Senado Federal e a Presidência da República homens e mulheres que não tivessem medo de fazer justiça, amar a misericórdia e andar humildemente com seu Deus”.

Francisco Helder Sousa Cardoso

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comentários
  1. Daniel Pereira disse:

    Graça e paz!
    Antes de qualquer coisa queria parabenizá-lo pelo blog, e em especial por este artigo que acabo de ler. Quando vi na tv este escandalo, fiquei muito enfurecido também e creio que este foi o sentimento de todos os que amam o evangelho e zelam pela ética cristã. Ao ler este artigo foi como está ouvindo alguém falar aquilo que o meu coração gritou no intimo do meu ser ao ver aquelas cenas vergonhosas e como bem colocado pelo irmão “abomináveis”, e por isso queria dizer obrigado. Deus continue te usando como benção!!!

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